Suicídio e Carta-Testamento de Vargas

Suicídio de Getúlio Vargas

Em 1950, Getúlio Vargas chega ao cargo da Presidência da República por meio do voto direto, de forma democrática. Sendo o único ditador da América Latina que foi eleito novamente. Mas obviamente não seria a mesma experiência do Estado Novo, já que a democracia havia se “intensificado no País”. Com isso os opositores de Vargas (como a UDN por exemplo), começaram a usar diversos meios para aumentar o movimento contra o Presidente, como por exemplo o jornalista Carlos Lacerda. Também a oposição tomou força significativa com o “Atentado da Rua Tonelero”, atentado que teria atingido Lacerda e seu segurança (que era militar). Até hoje os historiadores não chegam numa conclusão certa sobre a origem deste atentado. Uns dizem que foi a mando de Getúlio, outros dizem que foi uma armação da UDN para o incriminar. De qualquer forma, com o ocorrido, os militares se juntaram contra Vargas.

Com o ocorrido, o populista comete suicídio em 24 de agosto de 1954, ou em suas palavras, deu “em holocausto a sua vida”. Antes de morrer, ele deixa uma carta com sua assinatura, segue a carta abaixo:

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam
sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa.
Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como
sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e
financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e
instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A
campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o
regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça
da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na
potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de
agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja
livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que
destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas
declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de
dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu
preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo
suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora
se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o
sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao
vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e
vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício
vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama
imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o
perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me
liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu
sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a
espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as
infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte.
Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Consulte o PDF da carta em: https://www2.camara.leg.br/atividade-

legislativa/plenario/discursos/escrevendohistoria/getulio-vargas/carta-testamento-de-getulio-vargas

 

Autor – Vinícius Marques Veríssimo

 

 

 

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